pirapitinga vaz'a baril (2025)

Peça octofônica inspirada no rio Vaza-Barris, um dos rios mais importantes do Nordeste brasileiro. Nascendo no sertão da Bahia e percorrendo cerca de 450 km até desaguar no oceano Atlântico, em Aracaju, o rio transporta em suas águas não apenas a paisagem natural, mas também a memória histórica e cultural de toda uma região. Seu nome indígena, Parapitinga ou Ipiranga, remete a um tempo anterior à colonização, quando o rio era compreendido como uma entidade viva, fonte de sustento espiritual e material para os povos originários.

Mais tarde, o Vaza-Barris testemunhou a chegada dos colonizadores portugueses, esteve próximo de conflitos decisivos como a Guerra de Canudos e continua, ainda hoje, sendo meio de subsistência e inspiração para as comunidades ribeirinhas, que dependem dele para a pesca, as festas populares e a construção de modos de vida tradicionais. Ao mesmo tempo, enfrenta atualmente ameaças como o desmatamento, a pecuária extensiva, a agricultura intensiva e a especulação imobiliária, que comprometem suas águas e seu ecossistema.

A obra se organiza em três movimentos, cada um refletindo uma dimensão simbólica e sonora do rio.

Nascentes dos Antepassados
  Evoca a espiritualidade indígena e a força ancestral da água como princípio vital, fazendo emergir vozes espectrais e texturas rituais que se misturam à sonoridade das nascentes e da floresta.

Correntes do Sertão
  Mergulha na ambivalência entre abundância e escassez, representando a força das cheias, a aridez do semiárido e a memória histórica da resistência no sertão baiano, especialmente em Canudos.

Deságue
  Coloca o ouvinte diante do encontro do rio com o mar e com a vida urbana de Aracaju, onde tradições, pesca e festas populares se entrelaçam com os ruídos da modernidade e os sinais de degradação ambiental, projetando ao mesmo tempo a vitalidade e a vulnerabilidade do rio.